Você abre o cardápio, lê tudo duas vezes e pergunta para quem está com você: “o que você vai pedir?”. No trabalho, a proposta está pronta há dias, mas falta decidir entre duas versões. Se isso é familiar, a dificuldade em tomar decisões provavelmente não é falta de inteligência nem de informação. Quase sempre é outra coisa.
Em meio à enxurrada de informações e opções disponíveis no mundo moderno, tomar decisões se torna cada vez mais desafiador.
O processo de tomada de decisão é um processo cognitivo no qual determina-se o modo de agir frente a um determinado estímulo.
Dessa forma, qualquer decisão é influenciada pela percepção de si, pelos instintos, nível de consciência, emoções, avaliação de riscos, finalidade e ambiente.
A dificuldade de tomar decisões, pode nos impedir de alcançar objetivos, gerar ansiedade e frustração, e até mesmo prejudicar os relacionamentos.
As Armadilhas da Dificuldade de Tomar Decisões:
A indecisão pode ter diversas causas, como:
- Medo do erro: O receio de tomar a decisão errada e sofrer as consequências pode levar à procrastinação e à inação.
- Perfeccionismo: A busca incessante pela perfeição pode impedir de tomar decisões por medo de que não sejam as melhores possíveis.
- Excesso de informações: A sobrecarga de informações é capaz de confundir e dificultar a análise das opções disponíveis.
- Falta de confiança: A baixa autoestima e a insegurança podem levar a duvidar das próprias capacidades para tomar decisões acertadas e questionar os recursos próprios para lidar com possíveis adversidades. Nesses casos, vale trabalhar também como aumentar a autoestima.
- Análise excessiva: Ruminar sobre todas as possibilidades e suas consequências pode paralisar e procrastinar uma ação.
Por que a dificuldade em tomar decisões aparece
Por trás dessas armadilhas, costuma haver um mecanismo comum: a intolerância à incerteza. É a sensação de que não saber como as coisas vão terminar é insuportável — e de que, se você pensar mais um pouco, vai encontrar a opção sem risco. O termo vem das pesquisas sobre ansiedade e preocupação excessiva, e aparece muito no consultório.
O pensamento automático costuma soar assim: “Se eu escolher errado, a culpa vai ser toda minha.” Ou: “Preciso ter certeza antes de decidir.” Como a certeza total não existe, a decisão fica suspensa. E adiar dá um alívio imediato, porque, enquanto você não decide, também não erra.
O psicólogo Adrian Wells, criador da terapia metacognitiva, descreveu como muitas pessoas acreditam que se preocupar é útil — “se eu pensar em todas as possibilidades, estarei preparada”. Essa crença mantém a análise girando. Pensar mais parece responsabilidade, mas funciona como evitação.
Vale dizer: essa indecisão tem uma função. Ela te protege do arrependimento, da crítica e da culpa. Muitas mulheres aprenderam cedo que errar custava caro — uma bronca, uma decepção, um “eu te avisei”. Faz sentido que, adulta, você queira ter certeza antes de escolher. Não é fraqueza. É uma resposta aprendida, e pode ser desaprendida.
Como a indecisão aparece no dia a dia
Nem sempre ela parece indecisão. Alguns sinais comuns:
- Consultar todo mundo: você pergunta a opinião da mãe, da amiga, do marido e de um grupo de mensagens. “Se mais gente concordar, a responsabilidade não é só minha.”
- Pesquisa sem fim: mais uma avaliação, mais um vídeo, mais uma comparação. “Ainda não li o suficiente para escolher.”
- Decidir e desfazer: você escolhe, sente alívio por uma hora e depois volta atrás. “E se a outra opção fosse melhor?”
- Deixar que os outros decidam: o “tanto faz” que parece flexibilidade, mas é medo de assumir a escolha. “Assim, se der errado, não fui eu.”
- Travar nas pequenas escolhas quando está sobrecarregada: no fim de um dia cheio, escolher o jantar parece impossível. É o sinal de que o cansaço está pesando.
As Consequências da Indecisão:
A dificuldade de tomar decisões pode ter consequências negativas em diversos aspectos da nossa vida:
- Perda de oportunidades: A procrastinação e a inação podem nos fazer perder oportunidades importantes.
- Aumento do estresse e da ansiedade: A indecisão pode gerar sentimentos de frustração, impotência e ansiedade.
- Problemas nos relacionamentos: A dificuldade de tomar decisões pode afetar os relacionamentos pessoais e profissionais fazendo com que o outro adote uma postura mais autoritária.
- Baixa autoestima: A repetição de decisões erradas pode levar à diminuição da autoestima e da confiança em si mesmo. Com o tempo, isso pode se transformar em um padrão de autossabotagem, em que a pessoa deixa de tentar para não errar de novo.

Tomando decisões de forma assertiva:
Felizmente, existem diversas estratégias que podem nos ajudar a superar a dificuldade de tomar decisões:
- Defina seus objetivos: Tenha clareza sobre o que você deseja alcançar com a sua decisão. Isso te ajudará a avaliar as opções de forma mais objetiva.
- Reúna informações: Busque informações relevantes sobre as diferentes opções disponíveis. No entanto, evite o excesso de informações que podem te confundir.
- Considere os prós e contras: Liste os pontos positivos e negativos de cada opção. Isso te ajudará a ponderar as diferentes alternativas.
- Confie em sua intuição: Sua intuição pode ser um guia valioso na hora de tomar decisões.
- Defina um prazo: Estabeleça um prazo para tomar a decisão. Isso te ajudará a evitar a procrastinação.
- Aceite a incerteza: Nem todas as decisões serão perfeitas. É importante aceitar que a incerteza faz parte da vida.
- Aprenda com seus erros: Todos erram. O importante é aprender com seus erros e usar essa experiência para tomar melhores decisões no futuro.
- Busque ajuda profissional: Se a dificuldade de tomar decisões estiver causando um impacto significativo em sua vida, um psicólogo pode te auxiliar a identificar as causas do problema e desenvolver ferramentas para superá-lo.
Ferramenta da TCC: decidir com prazo e testar a previsão
Esta ferramenta junta as estratégias acima em um roteiro só. Use para uma decisão real, de tamanho médio — não comece pela maior da sua vida.
- Escreva a decisão em forma de pergunta. “Aceito ou não a proposta de mudar de setor?” Uma pergunta clara já diminui a névoa.
- Defina o que é “bom o suficiente”. Escolha dois ou três critérios que importam para você de verdade (tempo com a família, estabilidade, aprendizado). A pergunta deixa de ser “qual é a opção perfeita?” e vira “qual atende melhor aos meus critérios?”.
- Limite a informação. Decida antes quantas fontes vai consultar e quem vai ouvir. Depois disso, a pesquisa está encerrada.
- Faça a pergunta do pior cenário até o fim. “O que de pior pode acontecer? E se acontecer, o que eu faria?” Em geral, o medo para no primeiro passo; quando você completa a frase, descobre que teria recursos para lidar.
- Coloque um prazo na agenda. Dia e hora. Quando chegar, você decide com o que tem.
- Registre a previsão. Antes de agir, anote o que você teme e, de 0 a 100, quanto acredita nisso. “Vou me arrepender em uma semana: 80.”
- Revise depois, sem julgar pelo resultado. Uma decisão bem pensada pode ter um resultado ruim, e isso não a torna uma decisão errada. Pergunte: o que eu temia aconteceu? O que eu aprendi sobre a minha capacidade de lidar?
Na TCC, isso é um experimento comportamental: em vez de discutir com o pensamento “não posso errar”, você testa na prática o que acontece quando decide sem certeza total. Repetido, esse exercício ensina que a incerteza é desconfortável, mas é suportável.
Quando a indecisão pede ajuda profissional
Vale procurar acompanhamento quando a dificuldade em tomar decisões:
- trava decisões importantes por meses;
- vem junto de preocupação constante, dificuldade para dormir ou irritação;
- aparece com tristeza, cansaço e perda de interesse pelas coisas.
A indecisão está entre os sintomas possíveis de um episódio depressivo descritos no DSM-5-TR. Por isso, quando ela surge junto com desânimo persistente, não é só questão de técnica — leia também sobre as técnicas da TCC para depressão e converse com um profissional. Esses sinais não fecham diagnóstico; quem avalia é um profissional. Se você está em sofrimento intenso, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 ou em cvv.org.br. Em emergência, ligue 192 (SAMU). Se estiver em BH, explico como escolher acompanhamento em psicólogo em Belo Horizonte.
Lembre-se:
Toda decisão se baseia na busca por maiores benefícios e minimização de custos com riscos calculados. Dito isso, não existe uma melhor decisão, que seria unânime. Cada um irá ponderar os custos e benefícios mais relevantes para si. Tomar decisões é uma parte importante da vida e diminuir a dificuldade para tomá-las irá te levar a vivenciar uma vida mais assertiva, coerente com os seus valores e objetivos e com mais autonomia. Como as emoções pesam muito na hora de escolher, também pode ajudar este guia sobre controle das emoções.
Qual decisão está esperando por você há mais tempo do que deveria?
Se você quer trabalhar isso com acompanhamento, eu atendo em Belo Horizonte e online.


