O Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE), às vezes chamado de “alimentação seletiva”, tece uma teia de desafios alimentares e preocupações familiares. Mais do que uma simples recusa em experimentar novos alimentos, o Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo é um distúrbio alimentar complexo que exige compreensão, apoio e manejo especializado.
Muitas mães chegam ao consultório com a mesma frase: “Já tentei de tudo. Ele só come arroz, batata frita e um tipo de biscoito.” E, quase sempre, com culpa — como se fosse falta de pulso firme. Não é. E também não é só “frescura” de adulto que “nunca gostou de verdura”.
O que é TARE (Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo)?
O Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo é um distúrbio alimentar caracterizado pela evitação de certos alimentos com base em suas características sensoriais, como textura, cor ou cheiro. Diferente de outros transtornos alimentares, ele não envolve preocupações com o peso ou forma corporal. Pessoas com Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo frequentemente apresentam uma dieta extremamente limitada, o que pode levar a deficiências nutricionais, baixo peso e dificuldades no crescimento, principalmente em crianças. Esse transtorno afeta tanto a saúde física quanto a socialização, sendo importante o diagnóstico precoce e o tratamento adequado.
O TARE (em inglês, ARFID) entrou como diagnóstico no DSM-5, o manual diagnóstico da Associação Americana de Psiquiatria, em 2013, e foi mantido no DSM-5-TR (2022). Ele ampliou uma categoria que antes era restrita à primeira infância, reconhecendo que o quadro pode aparecer — e continuar — em qualquer idade.
Além da questão sensorial, o manual descreve outras duas motivações para a restrição, que podem aparecer sozinhas ou combinadas:
- Aversão sensorial: textura, cheiro, cor, temperatura ou aparência do alimento. “Se estiver molenga, eu não consigo engolir.”
- Pouco interesse por comer: a pessoa esquece de comer, fica satisfeita muito rápido ou vê a refeição como obrigação. “Eu comeria só se fosse um comprimido.”
- Medo de consequências ruins: engasgar, vomitar, sentir dor. Muitas vezes começa depois de um episódio real de engasgo. “E se ficar preso na garganta de novo?”
Critérios diagnósticos do TARE no DSM-5-TR
De forma resumida, o DSM-5-TR descreve o TARE assim:
- Uma perturbação na alimentação (por aversão sensorial, falta de interesse ou medo de consequências negativas) que leva a não atender de forma persistente às necessidades nutricionais e/ou de energia, com pelo menos um destes: perda de peso significativa (ou, em crianças, não ganhar o peso esperado ou crescimento abaixo do esperado); deficiência nutricional significativa; dependência de alimentação por sonda ou de suplementos nutricionais orais; prejuízo importante no funcionamento psicossocial.
- Não é explicada pela falta de alimento disponível nem por uma prática culturalmente aceita (como jejum religioso).
- Não ocorre exclusivamente durante anorexia ou bulimia nervosa, e não há perturbação na forma como a pessoa vivencia o peso ou a forma do corpo.
- Não é atribuída a outra condição médica nem mais bem explicada por outro transtorno mental. Quando acontece junto de outra condição (como autismo ou uma doença gastrointestinal), a gravidade da restrição vai além do que normalmente se espera nela e exige atenção clínica própria.
Esse resumo serve para você entender o quadro, não para fechar diagnóstico. Quem avalia é um profissional, geralmente em conjunto com o médico que acompanha a parte física.
Compreendendo o Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo

O Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo se caracteriza por uma perturbação alimentar persistente a uma variedade de alimentos baseada nas características sensoriais dele e aparente falta de interesse na alimentação, levando a uma ingestão nutricional inadequada e, em alguns casos, a deficiências de vitaminas e minerais. Tende a surgir na primeira década de vida porém, pode persistir na vida adulta. Dessa forma, quanto mais cedo for desenvolvido, maior a gravidade e consequências negativas que podem causar.
Indivíduos com TARE podem apresentar:
- Recusa em experimentar novos alimentos: Evitação de novas texturas, sabores, cores, odores ou aparências.
- Aversão a certos grupos alimentares: Frutas, legumes, verduras, carnes, peixes ou laticínios.
- Predileção por alimentos específicos: Alimentos processados, fast-food, doces ou carboidratos simples.
- Antecipação de uma experiência negativa: Pensamento frequente de que algo ruim irá acontecer após a ingestão dos alimentos, como asfixia ou vômitos.
- Comportamentos rígidos à mesa: Exigência de alimentos específicos, recusa em misturar alimentos no prato ou necessidade de um ambiente tranquilo para comer.
Sintomas e Sinais
- Restrição alimentar significativa: Ingestão limitada de alimentos por características sensoriais deles.
- Perda de peso ou dificuldade em ganhar peso: tal sintoma é relatado principalmente em crianças
- Crescimento lento ou estagnado: Em casos graves em crianças, pode afetar o desenvolvimento físico com peso e altura abaixo do que é esperado para o nível de desenvolvimento.
- Deficiências nutricionais: Falta de vitaminas, minerais ou outros nutrientes essenciais.
- Necessidade de alimentação através de sondas ou suplementos nutricionais orais: pela grande restrição alimentar, pode ser necessário outras formas para conseguir prover nutrientes para o corpo
- Problemas gastrointestinais: Constipação, dor abdominal ou outros distúrbios digestivos.
- Ansiedade e estresse: Dificuldade em lidar com situações sociais que envolvam comida.
- Baixa autoestima: Sentimentos de inadequação ou vergonha em relação aos hábitos alimentares.
- Isolamento social: Dificuldade de frequentar ambientes sociais como escola, trabalho e manter relacionamentos.
TARE ou criança seletiva: qual a diferença?
Recusar alimentos novos é parte do desenvolvimento de muitas crianças. Existe inclusive um nome para isso: neofobia alimentar, o receio de experimentar o que é desconhecido. A criança seletiva pode torcer o nariz para o brócolis, mas come uma variedade razoável de alimentos, cresce dentro do esperado e, com exposição repetida e sem pressão, tende a ampliar o cardápio com o tempo.
No TARE, a restrição tem consequências. Alguns sinais que ajudam a diferenciar:
- o repertório é muito pequeno e vai diminuindo em vez de aumentar — um alimento “cai” da lista e não volta;
- há impacto no peso, no crescimento ou nos exames (carências apontadas pelo pediatra);
- a criança tem reações intensas diante do alimento: ânsia, choro, pânico, e não apenas um “não quero”;
- a família organiza a vida em torno disso: leva comida própria para festas, evita restaurantes, prepara vários cardápios. “A gente nem vai mais no aniversário dos primos”;
- a dificuldade persiste mesmo com anos de tentativas.
Se você se reconheceu aí, isso não significa que você “errou” na criação. O TARE não é causado por pais permissivos. Mas insistir, forçar ou negociar prato a prato costuma aumentar a ansiedade em torno da refeição — por isso a orientação profissional faz diferença.
TARE em adultos: sinais que costumam passar despercebidos
Muitos adultos com TARE passaram a vida ouvindo que são “enjoados para comer” e aprenderam a esconder. Alguns sinais comuns:
- uma lista curta de “alimentos seguros”, sempre da mesma marca ou preparados do mesmo jeito;
- comer antes de sair para evitar ter que comer na frente dos outros: “Vou dizer que já jantei”;
- recusar convites de trabalho, viagens ou encontros por causa da comida;
- depois de um engasgo, passar a evitar alimentos sólidos ou mastigar excessivamente: “Se eu comer carne, vou engasgar de novo”;
- vergonha intensa ao ser observado comendo ou quando alguém comenta o prato.
Em adultos, o prejuízo psicossocial — deixar de viver coisas por causa da comida — costuma pesar tanto quanto a questão nutricional.
As Consequências do Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo
O TARE pode ter diversas consequências para a saúde física, mental e social do indivíduo, incluindo:
- Desnutrição: Deficiências de nutrientes que podem afetar o crescimento, desenvolvimento e saúde geral.
- Problemas de aprendizagem: Dificuldades de concentração, memória e raciocínio em decorrência da falta de nutrientes.
- Alterações de humor: apresentação de humor irritado, apático e retraído.
- Baixa autoestima: Sentir-se diferente ou inadequado por causa dos hábitos alimentares.
- Dificuldades nas relações familiares: momentos relacionados a alimentação podem representar um momento estressante tanto para o indivíduo quanto para os familiares.
Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo e o Impacto na Saúde Infantil: Quando a Seletividade Afeta o Crescimento

O Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo afeta diretamente o crescimento e desenvolvimento infantil devido à ingestão nutricional inadequada. A falta de nutrientes pode resultar em problemas como crescimento estagnado, baixa energia, e dificuldades de aprendizagem. Esse transtorno também impacta a saúde mental da criança, que pode sentir vergonha de seus hábitos alimentares, gerando baixa autoestima e isolamento social.
Tratamento do TARE: uma equipe multiprofissional
O tratamento exige uma abordagem multidisciplinar, envolvendo pediatras, nutricionistas, psicólogos e outros profissionais de saúde, além da participação ativa da família. Na prática, cada um cuida de uma parte:
- Pediatra ou clínico: avalia crescimento, peso, exames e descarta causas médicas (refluxo, alergias, problemas de deglutição).
- Nutricionista: garante que as necessidades nutricionais sejam atendidas enquanto o repertório se amplia, inclusive com suplementação quando indicada.
- Psicólogo: trabalha a ansiedade, o medo e a evitação, e orienta a família.
- Fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional: quando há dificuldades de mastigação, deglutição ou sensibilidade sensorial importante.
- Psiquiatra: quando há ansiedade intensa, TOC, autismo ou outras condições associadas que precisem de avaliação médica.
O objetivo do tratamento é:
- Ampliar a variedade alimentar: Expor a criança a novos alimentos e novas apresentações de forma gradual e positiva.
- Melhorar a relação com a comida: Reduzir a ansiedade e o estresse em torno das refeições.
- Ensinar hábitos alimentares saudáveis: Promover uma alimentação balanceada e nutritiva.
- Fortalecer a autoestima: Ajudar a criança a se sentir confiante e segura em relação a si mesma.
- Orientar a família: Auxiliar os pais a lidar com o TARE de forma eficaz e compassiva.
Lembre-se:
O Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo é um distúrbio complexo que exige cuidado, atenção, paciência e criatividade. Embora seja mais comum em crianças, pode durar ao longo da vida causando incômodos importantes em todas as fases da vida.
A perturbação causada pelo Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo pode ocorrer juntamente em um episódio de anorexia ou bulimia nervosa, entretanto, para se caracterizar o transtorno, é necessário que essa perturbação não ocorra exclusivamente durante esses episódios.
Para o tratamento, procure ajuda profissional. Com o tratamento adequado, é possível ampliar o repertório alimentar e construir uma relação mais saudável com a comida.
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) no Tratamento do Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma abordagem eficaz no tratamento do Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE). A TCC trabalha diretamente na identificação e modificação de pensamentos e comportamentos que levam à evitação de certos alimentos, ajudando o paciente a tolerar suas aversões sensoriais. Além disso, a terapia auxilia no desenvolvimento de novas habilidades para lidar com a ansiedade e o estresse associados à alimentação. Através de estratégias práticas, como a exposição gradual a novos alimentos, a TCC contribui para dessensibilizar o paciente quanto a aversão frente a determinados alimentos, auxiliando na aceitação de diferentes características sensoriais e a nutrição do paciente.
Existe inclusive um protocolo de TCC desenvolvido especificamente para o quadro, a CBT-AR, descrito por Jennifer Thomas e Kamryn Eddy no livro Cognitive-Behavioral Therapy for Avoidant/Restrictive Food Intake Disorder (Cambridge University Press, 2019), com versões para crianças, adolescentes e adultos. Com crianças, os pais participam ativamente — entenda melhor como funciona a TCC para crianças e adolescentes.
Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo: Diferenças no Comportamento Alimentar
Pacientes com o Transtorno do Espectro Autista frequentemente apresentam comportamentos alimentares rígidos e sensibilidade sensorial aumentada. Entretanto, nem sempre apresentam comprometimento suficiente para que possa se caracterizar como Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo. Em alguns casos, o paciente pode preencher critérios para ambos os transtornos.
Anorexia e Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo: Similaridades e Diferenças no Restritivo Alimentar
A anorexia nervosa e o Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo compartilham o comportamento de evitar alimentos, mas suas motivações são diferentes. Na Anorexia, a restrição é movida pelo medo de ganhar peso, enquanto no TARE, a evitação está ligada a aversões sensoriais, como textura e cheiro, sem preocupação com a forma corporal. Ambos os transtornos podem levar a sérias deficiências nutricionais e afetar o bem-estar físico e emocional. O tratamento de cada um requer abordagens específicas, que envolvem tanto o suporte psicológico quanto o nutricional.
Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo e Transtorno da Compulsão Alimentar: Opostos na Relação com a Comida
O Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE) e o transtorno da compulsão alimentar são condições que refletem polaridades na relação com a comida. Enquanto o TARE é marcado pela aversão a certos alimentos com base em suas características sensoriais, o Transtorno da Compulsão Alimentar envolve episódios de ingestão excessiva de grandes quantidades de comida em um curto período, sem controle.
Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo e Transtorno Obsessivo Compulsivo
Frequentemente indivíduos com Transtorno Obsessivo Compulsivo podem apresentar restrições com determinados alimentos ou comportamento alimentar ritualizado. Dessa forma, ambos os transtornos podem ser diagnosticados concomitantemente.
Transtornos Alimentares e Relação com a Alimentação: O Papel do TARE
O Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE) ilustra como transtornos alimentares podem afetar profundamente a relação de uma pessoa com a alimentação. No TARE, a alimentação se torna uma experiência de aversão, marcada pela recusa de alimentos devido a sua textura, cor ou cheiro, resultando em uma dieta extremamente limitada. Essa disfunção alimentar, embora diferente de distúrbios como anorexia ou bulimia, também tem consequências graves para a saúde física, como desnutrição e carências vitamínicas, além de causar impacto na vida social e emocional do indivíduo.
Quando procurar ajuda
Vale buscar avaliação quando a restrição afeta o peso, o crescimento ou os exames; quando o número de alimentos aceitos está diminuindo; quando há medo intenso de engasgar ou vomitar; ou quando a comida começou a limitar a vida social, escolar ou profissional. O primeiro passo costuma ser o pediatra ou clínico, para avaliar a parte física, junto com o acompanhamento psicológico.
Se houver perda de peso rápida, desmaios, fraqueza intensa ou recusa até de líquidos, procure atendimento médico imediatamente ou ligue 192 (SAMU).
Se você quer trabalhar isso com acompanhamento, eu atendo em Belo Horizonte e online. Saiba como funciona o atendimento com uma psicóloga em Belo Horizonte.



