Sobrecarga emocional: quando você carrega o que é dos outros

Você está sempre disponível: a amiga liga chorando e você larga o que está fazendo para socorrê-la, a irmã briga com o marido e é para você que ela conta, sua mãe está preocupada com a saúde e quem passa a noite em claro é você. Ninguém te pediu para carregar tudo isso. Mas, de algum jeito, tudo chega até você e você nem percebe como. Ao final do dia, você chega exausta, como se tivesse passado o dia apagando incêndios de todo mundo. Isso tem nome: sobrecarga emocional.

Ela é forte para o marido, para os filhos, para a mãe, para o trabalho, mas não tem colo de ninguém. Se você se reconheceu nessa frase, este texto é sobre você.

O que é sobrecarga emocional

Sobrecarga emocional é o acúmulo diário de emoções que você absorve, administra ou contém, muitas delas de outras pessoas, sem ter espaço para processar as suas. Não é um diagnóstico oficial, por isso, se configura mais como uma forma de descrever um estado que costuma vir antes do esgotamento: você ainda funciona, ainda dá conta, mas cada dia termina com um pouco mais de peso do que começou.

Uma imagem ajuda: pense num copo que recebe algumas gotas por dia. A amiga que desabafa, o chefe de mau humor, o filho ansioso, a mãe que reclama. Nenhuma gota, sozinha, é grande. O problema é que o copo nunca é esvaziado. Um dia, uma pergunta boba faz transbordar, e você não entende por que chorou por causa de uma louça.

Vale diferenciar de outro conceito: A carga mental, descrita pela socióloga Monique Haicault em 1984, fala do trabalho de planejar e lembrar tudo o que a casa e a família precisam. A sobrecarga emocional fala de outra coisa: do trabalho de sentir por todo mundo, de ser o lugar onde as emoções dos outros vão parar e você se sente responsável por acolhê-las e até mesmo, saná-las.

A socióloga Arlie Hochschild, no livro The Managed Heart (1983), chamou de trabalho emocional o esforço de administrar as próprias emoções para produzir um efeito nos outros: sorrir quando está destruída, manter a calma para ninguém se assustar. Ela estudava o trabalho remunerado, como o de comissárias de bordo. Mas quem vive a sobrecarga emocional reconhece o mecanismo dentro de casa, sem salário e sem horário para acabar.

Como a sobrecarga emocional aparece no dia a dia

Ela raramente aparece como “estou sobrecarregada”. Aparece em detalhes que você provavelmente já normalizou.

Você sabe como todo mundo está, menos você

Você percebe que o marido chegou calado, que a colega está chateada, que o filho está estranho. Se alguém te pergunta como você está, a resposta sai no automático: “Tô bem, e você?” O pensamento por baixo: “Não tenho tempo para olhar para isso agora.”

O humor dos outros decide o seu dia

Se alguém em casa acorda irritado, você passa o dia tentando consertar. Fica atenta ao tom de voz, às portas batendo, às mensagens curtas. E acompanhado, vem o pensamento: “Será que fiz alguma coisa?” Isso tem nome na TCC: hipervigilância. É a atenção sempre ligada para sinais de ameaça no ambiente, nesse caso, sinais de que alguém não está bem.

Você é o porto seguro, mas não tem porto

É para você que as pessoas ligam quando algo dá errado. Você escuta, acolhe, aconselha. Quando é você que precisa, trava: “Não quero incomodar ninguém com isso.” Ou: “Elas já têm problemas demais.”

Você ajuda e depois se ressente

Esse é um sinal importante. Você diz sim, ajuda, escuta por uma hora. Depois sente raiva, e logo em seguida culpa por ter sentido raiva. “Eu não deveria me sentir assim, ela é minha amiga.”

Você sente o que não é seu

A preocupação da sua mãe vira a sua insônia, a ansiedade do seu filho antes da prova vira o seu aperto no peito. Empatia é sentir com o outro. Na sobrecarga, você sente com o outro e também passa a sentir pelo outro, no lugar dele, e fica com a conta.

Esses sinais não fecham diagnóstico, mas servem para você se observar. Em muitos casos, vem acompanhado de muita ansiedade e em alguns casos, grande cansaço e desmotivação. O profissional irá avaliar os prejuizos, intensidade e crenças e comportamentos que mantem o quadro de sobrecarga.

Generosa ou com medo? A pergunta que muda a sobrecarga emocional

Eu preciso te contar uma coisa com cuidado. Existe uma diferença entre ser generosa e ter medo de decepcionar. E muitas das mulheres que eu atendo confundem uma coisa com a outra.

Generosidade é um ato livre, é quando você ajuda por vontade, depois sente leveza, até alegria. Mas quando você sente culpa só de pensar em não ajudar, quando diz sim e ressente a pessoa depois, quando faz por medo do que vão pensar se disser não, a motivação já não é generosidade. Nesse contexto podemos falar mais sobre o medo da rejeição.

Na TCC, a gente olha para a crença que sustenta esse comportamento. Judith Beck descreve crenças centrais de desamor, aquelas que dizem, lá no fundo, algo como “Se eu não for necessária, vou ser deixada de lado”. Quem carrega essa crença aprende uma regra para se proteger: “Se eu estiver sempre disponível, ninguém vai embora.” A regra muitas vezes funciona, as pessoas até ficam, enquanto as convém e do jeito que a regra permite, precisando de você, e não cuidando de você.

Isso é uma resposta aprendida, muitas vezes em uma infância em que ser a “boazinha”, a “madura”, a “que não dá trabalho” era o jeito mais seguro de ser amada. Por isso, ela pode ser desaprendida, e o primeiro passo é perceber que a disponibilidade total tem uma função: aliviar o seu medo, não só ajudar o outro.

Por que a sobrecarga emocional pesa mais nas mulheres

Desde cedo, muitas mulheres foram ensinadas a cuidar do clima emocional ao redor: acalmar o irmão, não chatear o pai, entender a mãe. Culturalmente, temos ainda o papel da mulher como a figura do cuidado – cuidar da casa, dos filhos, do marido, dos pais… Esse treino vira competência, e competência vira expectativa. De repente, você é a pessoa da família que “sabe lidar”, e todos passam a contar com isso.

O problema é que o cuidado emocional quase nunca é reconhecido como trabalho, até porque ele dificilmente é notado. Ninguém agradece por você ter percebido que o clima estava pesado e ter desarmado uma briga antes dela começar. Como é invisível, também não é dividido.

E aqui entra uma frase que eu repito bastante: a maioria das mulheres que chega até mim não tem um transtorno – tem uma vida impossível. O que não significa que não haja o que fazer. Significa que é preciso rever quanto do peso você aceitou carregar sem que ninguém perguntasse se você podia e principalmente, o que sustenta esse comportamento.

Ferramenta da TCC: o experimento da pequena ausência

A crença “se eu não estiver sempre disponível, as coisas desmoronam” raramente foi testada. Até porque, você sempre acreditou que se de fato acontecesse seria uma grande catástrofe. Na TCC, uma das formas de rever uma crença assim é o experimento comportamental: em vez de só discutir o pensamento, você o coloca à prova na vida real, de forma planejada. Esse tipo de técnica é detalhado no Oxford Guide to Behavioural Experiments in Cognitive Therapy (Bennett-Levy e colaboradores, 2004). Aqui vai uma versão simples para a sobrecarga emocional.

  1. Escolha uma situação pequena. Algo de baixo risco em que você costuma se oferecer automaticamente. Exemplo: responder na hora a mensagem longa de desabafo da amiga, mesmo estando exausta.
  2. Escreva a sua previsão. O que você acha que vai acontecer se não fizer? Seja específica: “Ela vai achar que eu não me importo e vai ficar chateada comigo.” Dê uma nota de 0 a 100% para o quanto você acredita nisso.
  3. Planeje a pequena ausência. Não é sumir e não respondê-la. A intenção é adiar ou limitar com gentileza. Por exemplo: “Amiga, hoje estou sem cabeça. Posso te ligar amanhã à tarde para a gente conversar direito?”
  4. Faça e observe. Repare no que acontece de fato: a resposta da pessoa, o tom, o que ela fez com o problema. Repare também na sua culpa, que provavelmente vai aparecer. Ela não é prova de que você errou; é só a crença reagindo.
  5. Compare resultado e previsão. O que você previu aconteceu? Em que medida? Dê de novo uma nota de 0 a 100% para o quanto você acredita na previsão original.
  6. Escreva o que aprendeu. Uma frase só. Pode ser “Ela entendeu e conversamos no dia seguinte” ou “Ela ficou chateada, e eu sobrevivi a isso”. Os dois resultados ensinam alguma coisa.

Repare no passo 6: o experimento não precisa dar “certo”. Às vezes a pessoa fica mesmo chateada. A pergunta é se a sua relação aguenta um limite, e se você aguenta o desconforto de alguém ficar chateado sem precisar correr para consertar. Isso é uma habilidade, e habilidade se treina. Para ir além, este texto sobre habilidades de comunicação assertiva ajuda a encontrar as palavras.

Uma pergunta rápida para usar no meio do dia, antes de absorver mais uma gota: “Isso que estou sentindo agora é meu ou é de quem acabou de falar comigo?” Às vezes, só perceber a diferença já abre um pouco de espaço.

Esvaziar o copo também é tarefa sua

Se a sobrecarga é o acúmulo, parte do cuidado é criar formas de esvaziar. Não com rituais de autocuidado vendidos como solução, mas com coisas concretas: ter pelo menos uma pessoa com quem você pode desabafar sem precisar retribuir na mesma hora; nomear o que sente em vez de só administrar; perceber quais relações só recebem e nunca oferecem. Este texto sobre como lidar com as próprias emoções pode te ajudar a começar a nomear. E se o que pesa é a dinâmica de um vínculo específico, vale ler sobre relacionamentos mais saudáveis e recíprocos.

Quando procurar ajuda

A sobrecarga emocional, quando se prolonga, costuma evoluir para esgotamento. Vale procurar um psicólogo se você percebe que não consegue mais desligar das preocupações dos outros, se está irritada ou chorando com frequência sem saber por quê, se seu sono mudou, se tem sentido raiva e culpa em ciclo, ou se já não lembra a última vez em que alguém cuidou de você. Se você está em Belo Horizonte, preparei um guia para escolher psicólogo em BH.

Se surgirem tristeza intensa e persistente, perda de interesse pelas coisas, sintomas físicos importantes, e prejuízos na sua vida cotidiana, considere também conversar com um médico ou psiquiatra.

Perguntas que costumam aparecer

Ser muito empática é o problema?

Não. Empatia é uma virtude muito valorizada na sociedade. O problema aparece quando ela vem sem limite: quando perceber o que o outro sente vira obrigação de resolver o que o outro sente.

Colocar limite não vai me tornar egoísta?

Esse medo costuma ser justamente a crença falando. Limite não é deixar de cuidar. É cuidar de um jeito que você consegue sustentar sem se perder no caminho.

Então eu te deixo com uma pergunta, para responder só para você: você faz as coisas por vontade ou por medo do não?

Se você quer trabalhar isso com acompanhamento, eu atendo em Belo Horizonte e online.

2 comentários em “Sobrecarga emocional: quando você carrega o que é dos outros”

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