Você já reparou que está cada vez mais comum as pessoas se queixarem de que estão com a memória cada dia pior? Desde situações simples como entrar na cozinha e não lembrar o que foi buscar, esquecer a senha que usa todos os dias, parar no meio da frase porque a palavra sumiu… E, depois vem o pensamento que assusta: “Será que tem alguma coisa errada com a minha cabeça?”
O esquecimento frequente é uma das queixas que mais incomodam as mulheres que chegam até mim. Quase sempre vem acompanhado de medo, às vezes de Alzheimer, às vezes de “estar ficando burra” e às vezes até com o diagnóstico de TDAH. E quase sempre vem de alguém que está carregando coisas demais ao mesmo tempo.
Nem de longe podemos minimizar o esquecimento, classificando-o apenas como estresse ou grande quantidade de estímulo. Mas é preciso entender o contexto e todo o mecanismo antes de concluir qualquer coisa.
Esquecimento frequente: memória que falha ou atenção que não chegou?
Grande parte do que a gente chama de esquecimento não é falha da memória em si. É falha na entrada da informação ou no processo de atenção. Para lembrar onde deixou a chave, seu cérebro precisa ter registrado o momento em que você a deixou. Se, naquele instante, sua atenção estava na reunião de amanhã, no recado da escola e na conta que vence, a informação simplesmente não foi gravada.
Na neuropsicologia, a gente separa atenção, memória de trabalho (o “bloco de notas” que segura a informação por alguns segundos) e memória de longo prazo. Quando a atenção está dividida o tempo todo, a memória de trabalho fica lotada e dessa forma, a memória de longo prazo não se “cristaliza”. O que transborda se perde.
Por que acontece: ansiedade, sono e hormônios
A preocupação ocupa o espaço da memória
A teoria do controle atencional, proposta por Michael Eysenck e colegas em um artigo publicado na revista Emotion em 2007, ajuda a explicar isso. A ansiedade desvia a atenção para possíveis ameaças e para a própria preocupação. Sobra menos recurso para o que está na sua frente. Você não está “desatenta por defeito”: seu sistema de alarme está consumindo a atenção que a tarefa precisava.
O medo de esquecer piora o esquecimento
Aqui entra um mecanismo que a TCC conhece bem: a hipervigilância. Depois que você se assusta com um lapso, passa a monitorar a própria memória. Cada pequeno esquecimento vira prova. “Esqueci de novo. Está piorando.” Esse monitoramento gera mais ansiedade, que gera mais desatenção, que gera mais lapsos. O psicólogo Adrian Wells descreve esse tipo de ciclo ao estudar as crenças que temos sobre o nosso próprio pensamento, a chamada metacognição.
Sono curto cobra juros
Dormir pouco por semanas prejudica a consolidação da memória, que acontece em boa parte durante o sono. Mães de crianças pequenas, mulheres que trabalham em turnos e quem acorda de madrugada com a cabeça a mil conhecem bem essa conta. Costumo dizer que é no sono que acontece uma “coleta seletiva” no cérebro. Isto é, é nesse momento, que ele vai organizar o que foi importante e merece ser cristalizado e o que pode ser descartado. Depois de uma noite mal dormida, o cérebro se ocupa mais em manter as funções do corpo em funcionamento, do que em registrar acontecimentos.
A perimenopausa entra na história
A partir dos 40 e poucos anos, muitas mulheres percebem a chamada névoa mental: dificuldade de achar palavras, de se concentrar, de lembrar compromissos. O estudo SWAN, que acompanhou mulheres na meia-idade e foi publicado na revista Neurology em 2009 por Greendale e colegas, observou uma piora temporária em alguns aspectos do desempenho cognitivo durante a transição para a menopausa, com recuperação depois. Vale conversar com sua ginecologista sobre isso.
Excesso de estímulos
A quantidade de informação consumida ao mesmo tempo durante o dia, faz com que a atenção se torne cada vez mais disputada. Quando ha interrupções, a informação passa a ser absorvida de forma superficial, prejudicando o processo de aprendizagem e recuperação da informação posteriormente.
Como o esquecimento por sobrecarga aparece no dia a dia
Alguns sinais costumam apontar para atenção sobrecarregada, e não para uma doença que afeta a memória. Eles não fecham diagnóstico, mas ajudam a organizar a conversa com um profissional.
- Você esquece o que é rotineiro, mas lembra do que é importante para você. “Esqueci a reunião, mas lembro de cada detalhe da briga com a minha irmã.”
- Os lapsos pioram em semanas difíceis e melhoram nas férias. “Na praia eu não esqueço nada.”
- Quando alguém te dá uma pista, você lembra. A informação estava lá; faltava o caminho até ela.
- Você percebe e se preocupa com os próprios esquecimentos. Em quadros neurológicos degenerativos, é comum que quem convive perceba mais do que a própria pessoa.
- Os lapsos vêm junto com cansaço, irritação e sono ruim. “Eu estou sempre no limite. Não sobra cabeça para nada.”
Quando o esquecimento é preocupante
Alguns sinais pedem avaliação, e sem demora:
- esquecimentos que pioram de forma progressiva ao longo de meses;
- perder-se em lugares conhecidos;
- dificuldade nova para lidar com dinheiro, receitas ou tarefas que antes eram automáticas;
- repetir a mesma pergunta várias vezes na mesma conversa;
- mudanças de comportamento ou de personalidade percebidas pela família;
- esquecimento depois de pancada na cabeça, com dor de cabeça forte, alteração da fala ou fraqueza de um lado do corpo. Nesse caso, procure atendimento médico de urgência.
Esses mesmos sinais servem para quem está preocupada com o pai ou a mãe. Muitas mulheres da geração que cuida dos filhos e dos pais chegam até mim por causa de um idoso da família, e não por elas mesmas.
O que fazer: o experimento do diário de lapsos
Antes de concluir que sua memória está falhando, vale juntar dados. Na TCC, a gente testa a previsão catastrófica (“Estou ficando com Alzheimer”) com observação, e não com mais preocupação.
- Durante duas semanas, anote cada lapso logo que ele acontecer: o que você esqueceu, onde estava e o que estava fazendo ao mesmo tempo.
- Ao lado, dê uma nota de 0 a 10 para o seu nível de estresse naquele dia e anote quantas horas você dormiu na noite anterior.
- Registre também o pensamento que veio depois: “Estou piorando”, “Isso não é normal”.
- No fim de cada semana, procure padrões. Os lapsos se concentram nos dias mais estressados? Nas noites mal dormidas? Quando você faz três coisas ao mesmo tempo?
- Pergunte a si mesma: que evidência eu tenho de que é uma doença, e que evidência eu tenho de que é sobrecarga?
Esse registro tem duas funções: diminuir a ansiedade, porque troca o medo vago por informação concreta, e, se você decidir fazer uma avaliação, ele é um material excelente para a profissional que vai te atender.
Em paralelo, tire da memória o que pode ficar fora dela: use agenda, lista, alarme. Isso é uma forma de utilizar ferramentas e reconhecer que seu bloco de notas mental tem limite, como o de qualquer pessoa.
Uma pergunta para quando o medo apertar
Quando o pensamento “estou ficando doente” aparecer depois de um lapso, experimente a pergunta socrática que eu uso muito no consultório: “Se a minha melhor amiga me contasse esse mesmo esquecimento, com a mesma rotina que eu tenho, o que eu diria para ela?” Quase sempre a resposta é mais gentil e mais realista do que a que você dá para si mesma. Algo como: “Você dormiu cinco horas, está com três crianças e um projeto atrasado. É claro que esqueceu.”
Esse seria uma mudança do olhar para o mesmo fato com todas as informações na mesa, e não só com a parte que assusta. Se, mesmo assim, a dúvida continuar, a resposta não está em se vigiar mais. Está em buscar uma avaliação.
Quando procurar uma avaliação neuropsicológica
Se os esquecimentos atrapalham o trabalho ou a rotina há meses, se vêm piorando, ou se o medo de ter algo grave está tomando conta, uma avaliação neuropsicológica pode trazer clareza. Ela mede atenção, memória, linguagem e funções executivas com testes padronizados, compara o resultado com pessoas da sua idade e escolaridade e ajuda a diferenciar o que é efeito de ansiedade, depressão ou sono do que merece investigação neurológica. Expliquei aqui como a avaliação neuropsicológica identifica problemas cognitivos.
Quando a ansiedade é a principal suspeita, vale conhecer os sintomas de ansiedade que deixam de ser normais. E, se a dificuldade de concentração acompanha você desde a infância, o quadro pode ser outro: escrevi sobre TDAH em mulheres adultas.
Na próxima vez que você esquecer onde deixou a chave, repare no que estava na sua cabeça naquele momento. Era a chave? Ou eram outras vinte coisas?
Se você quer entender o que está acontecendo com a sua memória, ou com a de alguém da sua família, eu faço avaliação neuropsicológica em Belo Horizonte. Agende uma conversa pelo WhatsApp e eu te explico como funciona.
Perguntas frequentes
Ansiedade pode causar perda de memória?
A ansiedade afeta principalmente a atenção e a memória de trabalho, o que dá a sensação de “memória ruim”. Em geral, quando a ansiedade é tratada, o desempenho melhora. Uma avaliação ajuda a confirmar se é isso mesmo.
Esquecimento aos 30 anos é normal?
Lapsos ocasionais são comuns em qualquer idade, principalmente com sono ruim e sobrecarga de atividades. O que pede atenção é o padrão: esquecimentos que pioram, que atrapalham a rotina ou que aparecem junto com outras mudanças.
Qual profissional procurar primeiro?
Se houver sinais de alerta neurológico, comece pelo médico (clínico geral, neurologista ou geriatra, no caso de idosos), que pode pedir exames. A avaliação neuropsicológica costuma complementar essa investigação e também pode ser o primeiro passo quando a suspeita principal é emocional.


