Quase toda mulher que chega ao consultório com sintomas de depressão, em algum momento, faz a seguinte pergunta: “Por que isso aconteceu comigo, se a minha vida nem é tão ruim?”. Mas, por trás dela quase sempre mora outra, mais dura: “Então a culpa é minha?”
A resposta imediata é: Não. E entender as causas da depressão ajuda a tirar esse peso do lugar errado. A depressão não tem uma causa única, ela nasce do encontro entre fatores de personalidade, fatores genéticos, a história de vida e experiências de vida, e o jeito como aprendemos a interpretar o que acontece com a gente.
A Organização Mundial da Saúde descreve exatamente isso: a depressão resulta de uma interação complexa entre fatores sociais, psicológicos e biológicos (OMS, ficha sobre depressão). Vou destrinchar cada parte.
As causas da depressão no modelo biopsicossocial
O nome técnico é modelo biopsicossocial. Na prática, ele diz que não adianta procurar “o” motivo, o que existe é uma combinação de:
- vulnerabilidades: coisas que tornam uma pessoa mais sensível, como histórico familiar, temperamento e experiências da infância;
- estressores: acontecimentos e condições que pesam, como perdas, conflitos, sobrecarga e doenças;
- fatores de manutenção: padrões de pensamento e comportamento que, depois que a depressão começa, fazem ela continuar.
Na TCC, a relação entre os dois primeiros é descrita pelo modelo de diátese-estresse: uma vulnerabilidade que fica quieta até encontrar uma situação que a ativa. É por isso que duas pessoas podem passar pela mesma perda e só uma delas desenvolver depressão.
O que o corpo tem a ver com isso
Histórico familiar
Ter pais ou irmãos com depressão aumenta a vulnerabilidade biológica, mas vulnerabilidade não é destino. Não existe um “gene da depressão” que decide sozinho; o que se herda é uma sensibilidade que interage com o ambiente. E, em uma família, também se herdam jeitos de lidar com emoção, de falar (ou não falar) sobre sofrimento. Além disso, fatores de personalidade dos pais também podem ser herdados pelos filhos, e no caso da depressão, o que mais influência para o desenvolvimento do transtorno é o neuroticismo. Esse traço de personalidade diz respeito ao quanto você é sensível por emoções negativas.
Serotonina e o “desequilíbrio químico”
Você provavelmente já ouviu que depressão é “falta de serotonina”. Essa explicação é uma simplificação. Uma revisão ampla publicada em 2022 por Joanna Moncrieff e colaboradores, na revista Molecular Psychiatry, não encontrou evidência consistente de que a depressão seja causada simplesmente por níveis baixos de serotonina (Moncrieff et al., 2022). O estudo gerou debate entre pesquisadores, e o funcionamento do cérebro na depressão continua sendo investigado.
Duas coisas precisam ficar claras aqui. Primeiro: isso não quer dizer que a biologia não importa – sono, hormônios, inflamação, doenças clínicas e o próprio estresse crônico tem uma papel essencial na química do cérebro. Segundo: isso não é argumento para parar ou evitar medicação. Se você usa ou tem dúvidas sobre antidepressivos, converse com seu psiquiatra.
Condições clínicas e fases hormonais
Algumas doenças e alguns medicamentos podem produzir ou agravar sintomas depressivos. Gestação, pós-parto e a transição para a menopausa são períodos que pedem atenção redobrada, por isso a avaliação médica é parte do cuidado. Esse contexto hormonal afeta principalmente as mulheres e além das mudanças na vida em si, as alterações hormonais, influênciam diretamente no humor, logo na forma como interpretam e absorvem as situações e , consequentemente, favorecem o desenvolvimento de um quadro depressivo.
Eventos de vida: quando o que acontece pesa

A OMS cita desemprego, luto e eventos traumáticos entre os fatores que aumentam o risco. Na clínica, eu vejo alguns padrões que se repetem:
- Perdas: de pessoas, de relacionamentos, de trabalho, de saúde, de uma versão de si mesma.
- Sobrecarga sem pausa: anos sustentando casa, trabalho, filhos e pais, sem espaço para as próprias necessidades.
- Relações que machucam: críticas constantes, desvalorização, solidão dentro de uma relação.
- Experiências difíceis na infância: negligência emocional, perdas precoces, ambientes imprevisíveis.
- Traumas: que às vezes se misturam com outros quadros, como o transtorno de estresse pós-traumático.
Nem toda depressão tem um evento claro antes, às vezes ela vai se instalando devagar, e só depois dá para perceber o acúmulo.
O contexto também conta
Além dos acontecimentos marcantes, existe o pano de fundo do dia a dia. A OMS também relaciona a depressão ao sedentarismo e ao uso nocivo de álcool. Na clínica, somo a isso o sono cronicamente curto, a falta de rede de apoio e a solidão – inclusive o sentimento de solidão de quem está sempre rodeada de gente, mas nunca é efetivamente cuidada.
Muitas mulheres que atendo descrevem a vida como uma lista de tarefas sem fim. “Eu não tenho tempo nem de pensar em como estou.” Esse é um contexto que não causa depressão sozinho, mas deixa o terreno mais frágil e fértil para que o transtorno se desenvolva. Quando chega uma perda ou um conflito, já não sobra reserva para absorver o impacto.
Perceber isso não é para se culpar por não ter “se cuidado”, o objetivo é enxergar que o quadro tem raízes concretas, e que algumas delas podem ser mexidas desde o ínicio.
A parte psicológica: crenças centrais e o jeito de ler a vida
Aqui está o que a terapia cognitivo-comportamental acrescenta de mais útil. Aaron Beck, a partir dos anos 1960, observou que pessoas com depressão tinham um jeito muito particular de interpretar os acontecimentos. Ele chamou isso de tríade cognitiva: uma visão negativa de si, do mundo e do futuro.
Por baixo dessas interpretações estão as crenças centrais: ideias profundas sobre quem somos, aprendidas cedo e raramente questionadas. Judith Beck, em seu manual de terapia cognitiva, as organiza em alguns grandes temas, como desamparo (“eu sou incapaz”), desamor (“ninguém vai me amar de verdade”) e desvalor (“eu não presto”).
Essas crenças costumam ficar quietas enquanto a vida está razoável, ou quando não se tem um contexto que as reforce constantemente. Um evento que “encaixa” nelas, como uma demissão para quem acredita que é incapaz, um término para quem acredita que não é amável, as ativa. E aí os pensamentos automáticos disparam:
- “Eu sabia que ia dar errado. Sempre dá.”
- “Se ele foi embora, é porque eu não sou suficiente.”
- “Não adianta tentar, eu não vou conseguir.”
Esse é um mecanismo que, junto com os demais, liga a história à depressão. Não é o fato sozinho. É o fato lido através de uma lente que foi construída ao longo da vida. Jeffrey Young, com a terapia do esquema, aprofundou esse olhar para padrões que nascem de necessidades emocionais não atendidas na infância – necessidades essas como autonomia, limites com afeto e autocontrole, validação da expressão emocional, espontaneidade e vínculo seguro.
O que mantém a depressão depois que ela começa
Às vezes a causa inicial já passou, e mesmo assim a depressão continua. Isso acontece porque entra no que chamamos de um ciclo vicioso que se retro alimentam. Dessa forma, alguns comportamentos, que têm a função de proteger, acabam alimentando o quadro:
- Retraimento: você se afasta para poupar energia, mas perde contato e prazer e o humor cai mais.
- Ruminação: repassar “por que eu sou assim?” parece busca de solução, mas aprofunda a tristeza.
- Autocrítica: a voz interna que cobra, compara e diminui. “Qualquer pessoa daria conta, menos eu.”
- Evitação: adiar o que dá medo ou vergonha, e depois se culpar por ter adiado.
A boa notícia, dentro do possível, é que esses fatores de manutenção são justamente onde a terapia consegue atuar. Você não muda sua genética nem o que já aconteceu, mas pode mudar a forma como se relaciona com isso.
Uma ferramenta para hoje: a técnica da seta descendente
É uma das técnicas que uso para chegar das situações do dia a dia até as crenças centrais. Faça com calma, de preferência escrevendo.
- Escolha uma situação recente em que seu humor caiu. Exemplo: sua chefe não respondeu uma mensagem.
- Anote o pensamento automático: “Ela deve estar insatisfeita comigo.”
- Pergunte: “Se isso fosse verdade, o que significaria para mim?” Anote: “Que eu fiz algo errado.”
- Repita a pergunta sobre a nova resposta: “E se eu fiz algo errado, o que isso diz sobre mim?” – “Que eu não sou boa o suficiente.”
- Continue até chegar numa frase sobre quem você é. Geralmente é curta e dolorosa: “Eu sou incapaz.”
- Não tente discutir com ela agora. Só reconheça: “Essa é uma crença antiga, não um fato.” Depois, liste três situações da sua vida que não se encaixaram nessa ideia.
Esse exercício não resolve a depressão, mas mostra de onde vem a força de alguns pensamentos. Para seguir, este texto sobre identificar pensamentos disfuncionais ajuda, e as técnicas da TCC para depressão mostram como isso entra em um tratamento. Se o exercício mexer muito com você, não insista. Pare e retome com acompanhamento.
Quando procurar ajuda
Procure uma psicóloga ou um psiquiatra se o humor baixo, a perda de prazer ou a desesperança durarem duas semanas ou mais, se estiverem atrapalhando sua rotina, ou se você perceber que está se isolando.
Quando sua rotina e seus relacionamentos esão sendo impactados, também vale a pena procurar um acompanhamento profissional para que esse possa avaliar a gravidade e a necessidade do uso de medicações. Um ponto importante, a medicação não é para que você fique “dopada”, muito pelo contrário. Ela é uma forte aliada para te ajudar a ter mais disposição e quebrar o ciclo vicioso de um episódio depressivo.
Então, de quem é a culpa?
De ninguém, do jeito que a palavra “culpa” costuma ser usada. Existe uma história, um corpo e um conjunto de aprendizados que se encontraram em um momento difícil. Você não escolheu a lente como você enxerga as situações nesse momento, mas pode, com ajuda, perceber quando está olhando por ela e adotar medidas para mudá-la.
Qual é a frase que aparece no fim da sua seta descendente?
Se você quer trabalhar isso com acompanhamento, eu atendo em Belo Horizonte e online. Veja mais na página de psicóloga em Belo Horizonte.
Perguntas frequentes
Se tenho depressão na família, vou ter também?
Não necessariamente. O histórico familiar aumenta a vulnerabilidade, mas não determina. Muitas pessoas com histórico nunca desenvolvem o quadro. Como dito anteriormente, a depressão tem causa multifatorial.
Dá para ter depressão sem nenhum motivo?
Dá para ter depressão sem um acontecimento claro antes. Isso não quer dizer que não haja causas, quer dizer que elas podem estar mais no acúmulo, no corpo ou em vulnerabilidades antigas.
Crenças centrais mudam?
Podem ser flexibilizadas com trabalho terapêutico. Não é algo que muda de um dia para o outro, mas elas deixam de ser a única lente disponível.



