Tipos de depressão segundo o DSM-5-TR e a CID-11

Tipos de depressão: o que dizem o DSM-5-TR e a CID-11

“Mas é depressão mesmo, ou é só uma fase?” Essa pergunta chega muito ao consultório, quase sempre acompanhada de outra: “Existe um tipo de depressão que é o meu?”. Quem pesquisa sobre tipos de depressão costuma encontrar listas enormes, com nomes que parecem diagnósticos diferentes – Transtorno Depressivo maior, Depressão unipolar, Transtorno Depressivo Persistente, Depressão pós parto… e sai mais confusa do que entrou.

Vou organizar isso do jeito que a psicologia e a psiquiatria organizam. Os dois manuais de referência são o DSM-5-TR, da Associação Americana de Psiquiatria (2022), e a CID-11, da Organização Mundial da Saúde, em vigor desde 2022. Vale ressaltar, que muitos nomes populares não são oficiais, e por isso, não aparecem em nenhum dos dois. Outros aparecem, mas como uma “característica” de um quadro, e não como uma doença separada.

Antes de começar, um combinado: este texto ajuda a entender, não a se diagnosticar. Quem define o tipo e a gravidade é um profissional, em uma avaliação.

Tipos de depressão: como os manuais organizam

No DSM-5-TR, os transtornos depressivos formam um capítulo próprio. Os principais são:

  • transtorno depressivo maior;
  • transtorno depressivo persistente (antes chamado de distimia);
  • transtorno disfórico pré-menstrual;
  • transtorno depressivo induzido por substância ou medicamento;
  • transtorno depressivo devido a outra condição médica;
  • transtorno disruptivo da desregulação do humor (diagnosticado em crianças e adolescentes).

Além disso, o manual usa especificadores: descrições que se somam ao diagnóstico para dizer “como” aquela depressão se apresenta. Por exemplo: com início no periparto, com padrão sazonal, com características psicóticas, com características atípicas, com sintomas ansiosos. É aqui que entram muitos dos “tipos” que você vê por aí.

A CID-11, da OMS, usa uma organização parecida: episódio depressivo único, transtorno depressivo recorrente, transtorno distímico e transtorno misto de ansiedade e depressão, sempre com indicação de gravidade.

Transtorno depressivo maior

É o que a maioria das pessoas chama simplesmente de “depressão”. Para o diagnóstico, o DSM-5-TR pede pelo menos cinco sintomas, durante pelo menos duas semanas, sendo que um deles precisa ser humor deprimido ou perda de interesse e prazer. Os outros envolvem sono, apetite, energia, concentração, culpa excessiva, lentidão ou agitação e pensamentos de morte.

Pode acontecer uma vez na vida (episódio único) ou se repetir (recorrente). Se você quer entender melhor cada um desses sinais, escrevi um texto só sobre os sintomas da depressão.

Uma frase que caracteriza quem está em um episódio: “Eu não me reconheço.” Essa sensação de ruptura – de que você era de um jeito e agora é de outro – é bem característica, como se fosse algo externo e a pessoa estranha esse novo padrão de funcionamento.

Transtorno depressivo persistente (distimia)

Distimia, o transtorno depressivo persistente

Aqui a marca é o tempo. No adulto, o humor deprimido está presente na maior parte dos dias por pelo menos dois anos. Os sintomas costumam ser menos intensos que num episódio de depressão maior, mas duram tanto que a pessoa passa a achar que aquilo é parte da personalidade dela.

“Eu sempre fui assim, meio pra baixo.” “Eu sou pessimista, é meu jeito.” Quando alguém me diz isso, eu pergunto: desde quando? E muitas vezes a resposta é “desde a adolescência”. Isso não é jeito, não é algo que faz parte da personalidade, e pode indicar para algo que nunca foi estudado e observado a fundo.

Um detalhe: no transtorno depressivo persistente, também podem aparecer episódios de depressão maior por cima desse fundo crônico.

Transtorno disfórico pré-menstrual

É muito mais do que TPM. No transtorno disfórico pré-menstrual, sintomas de humor intensos como irritabilidade marcante, tristeza, ansiedade, sensação de estar fora de controle, conflitos, e eles aparecem na semana antes da menstruação e melhoram nos primeiros dias depois que ela começa, repetindo esse padrão na maioria dos ciclos.

Com o DSM-5, ele saiu da seção de “condições para estudos futuros” e passou a fazer parte do capítulo de transtornos depressivos (SAMHSA/NCBI, comparação DSM-IV e DSM-5).

Muitas mulheres passaram anos ouvindo que “é só hormônio” ou se chamando de descontrolada. O pensamento típico é: “Todo mês eu estrago tudo e depois me odeio por isso.” O diagnóstico costuma pedir registro diário dos sintomas ao longo de ciclos – a ferramenta lá embaixo ajuda nisso.

Depressão com início no periparto (pós-parto)

Não é um transtorno separado no DSM-5-TR, e sim o especificador “com início no periparto”: é usado quando o episódio depressivo começa durante a gestação ou nas quatro semanas seguintes ao parto (Postpartum Support International, resumo do DSM-5). Isso quer dizer que a depressão pode começar ainda na gravidez, e isso é algo que muita gente não sabe.

É diferente do chamado baby blues: choro fácil, sensibilidade e cansaço nos primeiros dias após o parto, que costumam passar sozinhos em pouco tempo. Quando os sintomas se intensificam, se prolongam ou atrapalham o cuidado consigo e com o bebê, é hora de procurar avaliação.

Nesse contexto, a culpa é enorme. “Eu deveria estar feliz.” “Que mãe não sente amor imediato pelo filho?” Em nenhum momento, isso se configura como falta de amor ou de alegria por ter o filho nos braços, mas é um quadro que é influênciado pelas mudanças hormonais e dificuldade de adaptação. Por isso, é um quadro que merece atenção e tem tratamento.

Padrão sazonal

Também é um especificador, não um tipo à parte. Descreve episódios depressivos que começam e terminam em épocas do ano parecidas, de forma repetida. No hemisfério norte, onde existem mudanças mais bruscas e mais explicitas de clima, é mais comum. Costuma acontecer no período de outono e inverno, pelo clima mais frio, falta de luz solar e mais restrições de atividades. Em paises tropicais, onde o clima tende a ser mais quente e com pouca oscilação entre as estações como no Brasil, esse transtorno não é tão comum.

Outras apresentações que você pode ouvir falar

  • Com características psicóticas: quando, junto com a depressão, aparecem delírios ou alucinações. É um quadro grave e pede avaliação psiquiátrica rápida.
  • Com características atípicas: o humor melhora um pouco com acontecimentos positivos, e há aumento de apetite ou de sono, sensação de peso no corpo e muita sensibilidade à rejeição.
  • Com sintomas ansiosos: tensão, inquietação e medo de que algo terrível aconteça junto com o humor deprimido. É muito comum – escrevi sobre isso em transtorno depressivo e ansioso.
  • “Depressão situacional”: o nome técnico mais próximo é transtorno de adaptação com humor deprimido, que fica em outro capítulo do DSM, ligado a estressores. Aparece depois de um acontecimento difícil e é menos intenso que um episódio depressivo maior.

Depressão bipolar: o diagnóstico diferencial que não pode faltar

Embora um dos polos presentes no transtorno bipolar, ele não é considerado um tipo de depressão separadamente. Entretanto, os episódios depressivos do transtorno bipolar podem ser muito parecidos com os da depressão “comum” (que os profissionais chamam de unipolar).

O que diferencia é a história: ter tido, em algum momento, períodos de mania ou hipomania – dias seguidos de energia muito aumentada, pouca necessidade de sono, fala acelerada, gastos ou decisões impulsivas, uma euforia ou irritação fora do seu normal.

Isso importa porque o tratamento é diferente. Por isso, em uma avaliação, eu sempre pergunto sobre fases de euforia, mesmo que a pessoa tenha vindo falar só de tristeza. Isso acontece porque dificilmente o paciente busca atendimento em uma fase de mania ou hipomania – nessa fase ele se sente produtivo, criativo e mais animado. Porém o episódio depressivo, tende a causar mais prejuízos, muitas vezes com dificuldade de fazer atividades básicas do dia a dia. Se você já teve períodos assim, conte ao seu psiquiatra.

A depressão tem fases?

Você talvez já tenha lido sobre “as 5 fases do luto”: negação, raiva, negociação, depressão, aceitação. Esse modelo vem da obra de Elisabeth Kübler-Ross sobre como as pessoas reagem diante da morte e do morrer (1969). Ele não descreve a evolução da depressão e não faz parte de nenhum manual diagnóstico.

O que os manuais usam são duas ideias:

  1. Gravidade: leve, moderada ou grave. Tanto o DSM-5-TR quanto a CID-11 classificam o episódio assim, considerando quantos sintomas estão presentes, a intensidade e o quanto atrapalham a vida. A OMS descreve a mesma divisão (OMS, ficha sobre depressão).
  2. Episódios e curso: um episódio único ou episódios recorrentes, com períodos de remissão parcial ou completa entre eles.

Então não existe uma escada que todo mundo sobe na mesma ordem. Um quadro leve pode se agravar, um grave pode melhorar com tratamento, e a gravidade pode mudar ao longo do tempo. “Depressão profunda” é um nome popular, geralmente usado para falar de um episódio grave.

Uma ferramenta para hoje: a linha do tempo do humor

Saber o “tipo” não é tarefa sua, mas você pode levar informações que ajudam muito quem vai te avaliar. Na TCC, a gente usa bastante a linha do tempo.

  1. Desenhe uma linha que vá da sua adolescência até hoje.
  2. Marque os períodos em que o humor esteve baixo por semanas ou mais. Anote a duração aproximada.
  3. Marque também os períodos de energia fora do comum: pouco sono sem cansaço, muitas ideias, impulsividade. Pergunte a alguém próximo se lembra de fases assim.
  4. Anote o contexto de cada período: gravidez, parto, mudança de estação, perdas, troca de medicação, doença.
  5. Se você menstrua, faça um registro diário de humor por dois ou três ciclos, com uma nota de 0 a 10 e a data da menstruação.
  6. Leve tudo para a consulta. Não precisa estar 100% preciso, bonito e completo, mas quanto mais informações conseguir levantar, melhor será para a sua avaliação.

Muitas vezes, é nesse desenho que a pessoa percebe: “Eu achei que era de agora, mas vem de muito antes.”

Quando procurar ajuda

Procure avaliação com psicóloga ou psiquiatra se o humor baixo ou a perda de prazer durarem duas semanas ou mais, se estiverem atrapalhando sua rotina, ou se você se reconheceu em algum dos padrões acima, principalmente no periparto, no padrão pré-menstrual ou em fases de euforia.

Em muitos casos, o uso da medicação, prescrita por um psiquiatra, ajuda muito no tratamento e na melhora do quadro.

A terapia cognitivo-comportamental tem abordagens para vários desses quadros; você pode ver algumas em técnicas da TCC para depressão.

Para fechar

Talvez o mais útil aqui não seja descobrir um nome, e sim perceber que existe um padrão: que aquilo que acontece com você tem começo, contexto e forma. O que a sua linha do tempo mostraria, se você a desenhasse hoje?

Se você quer trabalhar isso com acompanhamento, eu atendo em Belo Horizonte e online. Saiba mais na página de psicóloga em Belo Horizonte.

Perguntas frequentes

“Depressão sorridente” e “depressão funcional” são diagnósticos?

Não. São expressões populares para quem mantém a rotina e a aparência de bem-estar enquanto sofre por dentro. O quadro pode ser real, mas o diagnóstico usa os critérios dos manuais.

O tipo de depressão pode mudar com o tempo?

A apresentação e a gravidade podem mudar, e às vezes a história completa só aparece depois, como no caso de um primeiro episódio de hipomania. Por isso o acompanhamento ao longo do tempo importa.

Depressão pós-parto só acontece depois do parto?

Não. O especificador do DSM-5-TR inclui episódios que começam ainda na gestação.

Um quadro de ansiedade pode agravar e levar a um quadro de depressão?

Esses transtornos são apresentados juntos com frequência, mas não se pode afirmar que um leva ao outro. Entretanto, na prática clínica o que vejo é que muitos comportamentos evitativos da ansiedade, corroboram para o quadro depressivo.

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