Sintomas da depressão: sinais além da tristeza

Sintomas da depressão: sinais além da tristeza

Você continua indo trabalhar, respondendo mensagens, levando as crianças na escola. Por fora, está tudo funcionando. Por dentro, faz semanas que nada tem gosto, tudo parece sem graça e você não sabe se isso é cansaço, fase ruim ou outra coisa. Entender os sintomas da depressão ajuda justamente nessa dúvida: separar o que é tristeza do que é um quadro que merece avaliação.

Muitas pacientes dizem com frequência: “Eu não estou triste, só estou sem vontade de nada.” Ou então: “Não tenho motivo pra estar assim, minha vida está ok.” Porém essas frases sozinhas, já trazem um grande sinal de alerta e de que algo precisa ser melhor investigado.

Depressão não é só apenas o esteriótipo da pessoa que chora, se isola, sentimento de tristeza e pensamentos de autoextermínio. Muitas vezes ela aparece como irritação, lentidão, sono que não descansa, culpa por tudo, falta de prazer e de energia. E, principalmente em mulheres que sustentam a casa, o trabalho e a família, ela costuma ficar escondida atrás da produtividade.

O que são os sintomas da depressão, na prática

O Transtorno Depressivo Maior – Depressão é um transtorno do humor que mexe com o que você sente, com o que você pensa sobre si mesma e com o seu corpo. A Organização Mundial da Saúde descreve o episódio depressivo como um período de humor deprimido (triste, irritável ou vazio) ou de perda de prazer e interesse, presente na maior parte do dia, quase todos os dias, por pelo menos duas semanas (OMS, ficha sobre depressão).

Dois pontos dessa definição importam muito:

  • Duração: não é um dia ruim, nem uma semana pesada depois de uma notícia difícil, é um estado que se sustenta.
  • Frequência: quase todos os dias, na maior parte do dia. A depressão não costuma “dar folga” no fim de semana.

O termo técnico para a perda de prazer é anedonia e ela é, muitas vezes, mais reveladora do que a tristeza. É muito comum as pacientes dizerem que não sentem a tristeza, mas que não sentem nada – um vazio que não sabem nomear. É como se as emoções tivessem simplesmente, desligado.

Os sintomas emocionais e cognitivos

Aqui estão os sinais que mais aparecem na clínica. Repare que vários deles envolvem pensamento, não só emoção. E isso não é por acaso: Aaron Beck, criador da terapia cognitiva comportamental, descreveu o que chamou de tríade cognitiva da depressão: uma visão negativa de si mesma, do mundo e do futuro.

Humor deprimido ou vazio

É tristeza, sim. Mas também pode ser um vazio, uma sensação de estar “no automático”. Em algumas pessoas, aparece como irritabilidade: pouca paciência com os filhos, com o parceiro, com qualquer barulho.

Perda de interesse e de prazer

A série que você amava não prende mais. O encontro com as amigas vira obrigação. Tudo o que antes lhe era prazeroso, se torna indiferente, ou até mesmo ruim. Você vai, sorri, volta para casa exausta e com a sensação de que não estava lá. O pensamento costuma ser: “Não quero ir, não estou com energia para interagir e socializar.”

Culpa excessiva e sensação de inutilidade

A culpa na depressão é desproporcional. Você se culpa pelo que não depende de você, pelo que já passou, pelo que ainda nem aconteceu. “Eu sou um peso pra todo mundo.” “Se eu fosse uma mãe melhor, isso não estaria acontecendo.” Isso é um sintoma: sentimento de culpa desmedida e sensação constante de fracasso.

Dificuldade de concentração e de decidir

Ler um e-mail três vezes e não entender. Ficar parada diante do armário sem conseguir escolher uma roupa. A mente fica lenta e qualquer decisão parece pesada demais – ao mesmo tempo que passam muitos pensamentos na cabeça, ela parece estar vazia.

Desesperança

“Nada vai mudar.” “Sempre foi assim e sempre vai ser.” A desesperança é a parte do futuro na tríade de Beck e merece atenção especial, porque é um dos sinais ligados a risco de autoexterminio.

Pensamentos de morte

Pensar que seria melhor não acordar, que todos ficariam melhores sem você, ou pensar em tirar a própria vida. Se esses pensamentos tem aparecido com frequência, vale uma avaliação profissional com urgência.

Os sintomas físicos da depressão

A depressão mora também apresenta sintomas físicos, e isso confunde: muita gente passa por vários médicos investigando cansaço antes de alguém perguntar sobre o humor e o funcionamento no geral.

Sintomas físicos da depressão no corpo
  • Alterações no sono: insônia, acordar de madrugada sem conseguir voltar a dormir, ou dormir muito e ainda assim acordar cansada.
  • Fadiga: uma falta de energia que não melhora com descanso. Tudo parece ser uma tarefa grande, até mesmo tomar banho.
  • Mudança no apetite e no peso: para algumas pessoas o apetite some; para outras, a comida vira o único alívio do dia.
  • Lentidão ou agitação: falar e se mover mais devagar, ou, ao contrário, uma inquietação que não deixa parar sentada.
  • Dores sem causa clara: dor de cabeça, dor no corpo, desconforto digestivo. Vale sempre investigar com um médico, e vale também lembrar que o humor pode estar envolvido.

Algumas condições clínicas, como alterações de tireoide e deficiências de vitaminas também podem produzir sintomas parecidos. Por isso a avaliação médica faz parte do cuidado, e não substitui a psicológica – as duas se completam.

Sinais que quase ninguém associa à depressão

Esses são os que eu mais vejo passarem despercebidos, principalmente em mulheres que “dão conta de tudo”:

  1. Produtividade como anestesia. Você não para, porque quando para, o peso aparece. O trabalho vira uma forma de se anestesiar e não sentir. “Se eu parar, eu desabo.”
  2. Irritação no lugar de tristeza. Você explode por coisas pequenas e depois se culpa. Irritabilidade é um jeito comum de o humor deprimido se mostrar.
  3. Isolamento disfarçado de cansaço. Você recusa convites dizendo que está cansada – o que é verdade, mas também é evitação. “Não tenho energia pra fingir que está tudo bem.”
  4. Adiar o autocuidado básico. Remarcar o médico, deixar de se alimentar direito, não responder mensagens de quem gosta, deixar cuidados básicos como lavar cabeça, escovar dentes para depois… Não é preguiça, como falamos anteriormente, é a falta de energia que faz toda e qualquer tarefa extra, como algo demasiadamente pesado.
  5. Ruminação à noite. Deitar e revisar cada erro do dia, cada conversa, cada coisa que “deveria” ter feito diferente.

Esses sinais têm uma função: poupar energia e evitar desconforto – o que no curto prazo, funciona. No médio prazo, eles tiram de você justamente as coisas que poderiam trazer algum alívio: contato, prazer, sensação de conquista. É o que a terapia cognitivo-comportamental chama de ciclo de retraimento: quanto menos você faz, pior se sente; quanto pior se sente, menos faz.

Esses sinais não fecham diagnóstico

Quero deixar isso muito claro: reconhecer vários itens deste texto não significa que você tem depressão, pode acontecer que você esteja em um episódio depressivo. E não reconhecer quase nenhum não significa que está tudo 100%.

O diagnóstico é feito por um profissional, em uma avaliação que considera quantos sintomas estão presentes, há quanto tempo, com que intensidade e quanto atrapalham sua vida. Também é preciso diferenciar a depressão de outras condições como luto, transtorno bipolar, efeitos de medicamentos ou de doenças clínicas, entre outras. Testes online podem até servir de ponto de partida para uma conversa, mas não substituem essa avaliação e o olhar clínico do profissional.

É comum, ainda, que depressão e ansiedade apareçam juntas. Se você se identifica com preocupação constante além do desânimo, vale ler sobre o transtorno depressivo e ansioso.

Uma ferramenta para hoje: o registro de humor e atividades

Esta é uma das primeiras coisas que costumo propor na terapia para pacientes com humor rebaixado. Ela serve para você enxergar, com dados da sua própria semana, o que está acontecendo e, se for o caso, levar isso para uma consulta.

  1. Pegue um caderno ou o bloco de notas do celular. Divida cada dia em manhã, tarde e noite.
  2. Anote o que você fez em cada período. Sem julgamento. “Fiquei no sofá rolando o celular” é um registro válido.
  3. Dê duas notas de 0 a 10 para cada atividade: quanto de prazer ela trouxe e quanto de sensação de dever cumprido.
  4. Anote o humor geral do período, também de 0 a 10.
  5. Faça isso por sete dias e depois olhe o conjunto: em que momentos o humor sobe um pouco? O que você estava fazendo? Quais atividades zeraram as duas notas?
  6. Escolha uma atividade pequena que deu nota acima de zero e programe-a para a semana seguinte. Pequena mesmo: dez minutos de caminhada, uma ligação para uma amiga.

Esse registro é a base da ativação comportamental, uma das técnicas da TCC com mais estudo para depressão. Se quiser entender como ela se encaixa num tratamento, escrevi sobre técnicas da TCC para depressão. E se você perceber pensamentos muito duros aparecendo no registro, este texto sobre identificar pensamentos disfuncionais ajuda no próximo passo.

Um cuidado: se o registro mostrar que quase tudo está no zero, isso é uma informação importante para levar a um profissional.

Quando procurar ajuda

Procure uma avaliação com psicóloga ou psiquiatra se:

  • os sintomas estão presentes há duas semanas ou mais, na maior parte dos dias;
  • estão atrapalhando o trabalho, os estudos, os cuidados com a casa, com os filhos ou consigo mesma;
  • você percebe que está se afastando das pessoas e das coisas que antes importavam;
  • aparecem pensamentos de que a vida não vale a pena.

Se houver pensamentos de morte ou de se machucar, não espere. Ligue para o CVV — Centro de Valorização da Vida, no 188: a ligação é gratuita e o atendimento funciona 24 horas, também por chat no site.

Sobre medicação: ela pode fazer parte do tratamento, e essa decisão é médica. Se você já usa ou tem dúvidas, converse com seu psiquiatra. Ele é o profissional indicado para te orientar.


Um ponto importante, a medicação não é “a pílula da felicidade”. A sua função é aumentar os neutransmissores relacionados ao prazer e bem estar e melhorar a sua disposição para que possa começar a realizar mais atividades. Só fazer o uso da medicação, sem o processo de psicoterapia e atividades “antidepressivas”, não terá o mesmo efeito.

E muitos pacientes também tem um certo preconceito e preocupação de que a medicação poderá deixa-los dopados. A função da medicação é exatamente o oposto. Ela serve para te ajudar a funcionar melhor.

E agora?

Talvez você tenha lido tudo isso pensando em alguém ou esteja pensando em si mesma, e sentido um alívio estranho de ver escrito o que você vinha chamando de “preguiça” ou “frescura”.

Se foi o segundo caso, fica a pergunta: há quanto tempo você está funcionando no automático sem contar para ninguém?

Se você quer trabalhar isso com acompanhamento, eu atendo em Belo Horizonte e online. Você pode conhecer mais sobre o atendimento na página de psicóloga em Belo Horizonte.

Perguntas frequentes

Posso ter depressão mesmo sem chorar ou me sentir triste?

Pode. A perda de prazer e interesse, sozinha, já é um dos sintomas centrais. Muitas pessoas descrevem mais vazio, cansaço ou irritação do que tristeza.

Depressão sempre tem um motivo?

Nem sempre há um acontecimento claro antes. Às vezes há, às vezes o quadro vai se instalando aos poucos. Não ter “motivo aparente” não torna o sofrimento menos real.

Existe depressão “leve” que passa sozinha?

A gravidade varia, e mesmo quadros leves trazem sofrimento e podem se agravar. Em vez de esperar para ver, uma avaliação ajuda a entender o que está acontecendo e quais são as opções.

1 comentário em “Sintomas da depressão: sinais além da tristeza”

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